Conheci Benja quando ele fez sua estreia majestosa com “Ten Total”. Confesso: fui um pouco “maria vai com as outras” e cheguei ao álbum pelo burburinho da crítica — mas, sinceramente, eles estavam certos. É, sem dúvida, uma das melhores estreias de 2024.
O que mais me chamou atenção é como esse disco dialoga com um período muito específico da minha vida, quando eu ouvia obsessivamente Kanye West, principalmente “Yeezus” (2013) e “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” (2010) — duas obras-primas que moldaram uma era (pena que Kanye tenha se perdido em polêmicas absurdas). Benja parece beber dessa fonte, trazendo uma sonoridade que mistura o experimental eletrônico de Kanye no início da década passada com a atmosfera sombria e elegante que The Weeknd consolidou no fim dela. De quebra, ainda há ecos de Gesaffelstein, o que deixa tudo ainda mais intenso e magnético.
Benjamin Lyman, ou melhor, 1010benja, é cantor, compositor e produtor musical norte-americano. Sua trajetória artística começou de fato em 2017, com o lançamento do single “Boofiness”, que recebeu elogios da crítica e o colocou imediatamente como uma das novas promessas da música alternativa.
Oficialmente, a sonoridade de 1010benja é descrita como uma espécie de “soul estranho” (weird soul), uma definição que faz jus à sua capacidade de transitar entre gêneros, mesclando referências de forma experimental, inovadora e profundamente emocional.
Benja passou grande parte da infância e adolescência em igrejas pentecostais e COGIC (Church of God in Christ), onde seus pais atuavam como ministros. Essa vivência moldou não só sua sensibilidade musical, mas também sua visão de mundo. Seu pai — pianista gospel e pastor — foi uma influência determinante, chegando a colaborar em algumas de suas faixas, como “Woodrow” (2020).
Ele cita nomes como OutKast, cuja mistura de hip-hop e experimentação melódica inspirou sua liberdade criativa; Björk, referência direta em suas construções sonoras atmosféricas e emotivas; Kanye West, cuja abordagem visionária na produção musical se reflete na forma como Benja manipula texturas e ritmos; e John Frusciante, guitarrista do Red Hot Chili Peppers, que traz uma sensibilidade introspectiva e quase espiritual à sua arte. Essas influências se entrelaçam para moldar o estilo inconfundível de 1010benja — um “soul estranho”, híbrido entre R&B, música eletrônica e experimentação, resultando em uma sonoridade densa, sensorial e absolutamente singular.
Mas o universo de referências de Benja vai muito além da música. Ele cita influências que vão do desenvolvedor de jogos Hideo Kojima às leituras de “O Homem Invisível”, de Ralph Ellison, passando por séries de ficção científica como Star Trek. Essa mistura de espiritualidade, tecnologia e imaginação futurista resulta em uma obra que é ao mesmo tempo introspectiva, sensorial e profundamente humana.
Dê uma pausa no que você está fazendo e escute o álbum Ten Total, de 1010benja — é uma experiência sonora e emocional difícil de descrever em palavras. Há um equilíbrio impressionante entre sua voz suave e acessível, que poderia facilmente dominar o pop comercial, e a produção eletrônica experimental, que é estranha, inventiva e profundamente envolvente. O álbum é um reflexo perfeito do estilo “maximalista DIY” de Benja — ele faz tudo com as próprias mãos, mas com uma ambição de grandeza.
Em Ten Total, o artista constrói uma jornada pessoal sobre transformar dificuldades em arte. É como se cada faixa fosse um capítulo da história de alguém que, apesar de tudo, insiste em acreditar. A mistura entre otimismo e introspecção é o coração do disco: há momentos de euforia, mas também pausas contemplativas, em que ele se volta para dentro de si. De forma sutil e sensível, Benja fala sobre amor, redenção, gratidão, fé, perda e libertação — não como quem prega, mas como quem viveu tudo isso e sobreviveu para contar. É um álbum que, mais do que ser ouvido, se sente.
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