Indicações do Mês de Outubro - 2025

    Depois de um tempo longe desse blog — desde aquele hiato motivado pela minha raiva com o comercial da Luísa Sonza para a Trident, patrocinadora do Rock in Rio 2024 — até que a edição do The Town, o irmão mais novo do Rock in Rio, foi até interessante. Apesar dos erros catastróficos de produção, foi um bombardeio nacional de inícios de novas eras para artistas brasileiros.

    Mas, claro, um festival pode ser ao mesmo tempo o melhor e o pior lugar para divulgar um novo álbum. O lado bom é que há pessoas que não conhecem sua arte prontinhas ali para ver seu potencial. O lado ruim é que vai ter uma outra fila de artistas com o mesmo objetivo que o seu. É o novo “se vira nos 30” dos artistas brasileiros.

    O que mais me chamou atenção em todo esse novo movimento artístico que está acontecendo no Brasil e no restante da América Latina é a consciência da nossa latinidad, a redescoberta de quem somos enquanto povo de um continente. Parece que, enfim, estamos entendendo que não somos apenas “os de baixo do mapa”, mas uma potência cultural que sempre ditou tendências — mesmo quando o mundo fingia não ouvir.

    Esse sentimento coletivo, essa vontade de olhar pra dentro, veio com força justamente num momento de tensão global. A reeleição de Trump como presidente dos Estados Unidos reacendeu uma série de ataques e preconceitos contra o povo latino, e isso gerou uma resposta criativa e política dentro da arte. A música, o cinema, a moda e até o comportamento online passaram a carregar um certo grito de “estamos aqui, e somos muitos”.

    Considero um dos álbuns mais fortes contra essa onda conservadora republicana o "DeBÍ TiRAR MáS FOToS", do Bad Bunny. É um trabalho que mistura vulnerabilidade, raiva e identidade, questionando o que é ser latino em um mundo que insiste em nos colocar à margem. O álbum, além de musicalmente ousado, funciona como um espelho — ele devolve pra gente a imagem de um povo que está cansado de ser apenas “exótico” e quer ser reconhecido como revolucionário, consciente de sua história, memória e cultura. O título “DeBÍ TiRAR MáS FOToS” já nos dá a pista: é sobre a nostalgia e a urgência de preservar momentos, tradições e a identidade cultural porto-riquenha diante da ameaça da anexação e da gentrificação. Cada faixa é uma resistência cultural, um alerta sobre como a colonização, o imperialismo e a dominação econômica podem apagar raízes e apagar histórias, não só em Porto Rico, mas em toda a América Latina.

    E o mais bonito é ver que essa mensagem não ficou restrita a um país. Do Brasil à Colômbia, do México à Argentina, há uma nova geração de artistas que falam abertamente sobre origem, pertencimento, política e espiritualidade. É como se o continente tivesse acordado de um sono profundo, lembrando que nossa força está justamente nessa mistura — caótica, colorida, contraditória e viva — e que a arte é uma forma de resistir, de preservar memória e identidade diante de qualquer tentativa de apagamento cultural.



    Aqui no Brasil, temos Caro Vapor II: Qual a Forma de Pagamento, do “rapper favorito do seu rapper favorito”, Don L. Esse álbum é a continuação do seu trabalho de estreia, “Caro Vapor / A Vida e Veneno de Don L”, que ganhou fama na década passada. Além de ser um álbum incrível, muito bem produzido e com letras extremamente bem pensadas — algo que inovou totalmente a cena do rap nacional —, ele trouxe também uma nova versão, na voz de Don L, de “Beira de Piscina”, originalmente de Emicida. E, sejamos sinceros: a versão de Don L é simplesmente melhor, não tem como negar.

    Eu fico de cara com a maneira que Don L traz a atualidade e o caos contemporâneo da década de 2020 para suas músicas nessa continuação. Ao falarmos da nossa época, marcada pela atualidade cruel de um mundo esmagado pelo capitalismo tardio, a pergunta do álbum — “Qual a forma de pagamento?” — se torna retórica. Ela questiona o valor das coisas nesse sistema desigual e pode ser interpretada como: “O que se perde ou se paga para alcançar o sucesso, a riqueza ou simplesmente para sobreviver?”

    O álbum, assim como outros trabalhos do artista, explora temas sociais complexos e faz referências à sua cidade natal, Fortaleza. Musicalmente, o projeto se destaca por misturar rap com sonoridades do Sul Global, como bossa jazz, MPB, baião e até amapiano.

    Uma das faixas mais marcantes é “para Kendrick e Kanye”, que traz uma interpolação do clássico cantado por Milton Nascimento, “Para Lennon e McCartney” (escrita por Fernando Brant, Lô Borges e Márcio Borges). Na música de Milton, há uma homenagem direta a Lennon e McCartney, reconhecendo a influência dos Beatles na música brasileira. A letra reflete um processo de assimilação dessa influência estrangeira, seguido pela afirmação da própria identidade artística brasileira. Além disso, há uma crítica cultural: a música questiona a perspectiva limitada que o Ocidente muitas vezes teve sobre a música brasileira, chegando a chamá-la de “lixo ocidental” e sugerindo que os Beatles poderiam estar alienados dessa realidade. É, portanto, um verdadeiro hino de autoafirmação e identidade.

    Na versão de Don L, nosso “bom malandro” contesta a hegemonia cultural do rap americano, mostrando que ele não representa a totalidade do hip-hop. De um lado, temos Kendrick, com seus ideais progressistas, e do outro Kanye West, que frequentemente se envolve em polêmicas ligadas à extrema-direita. Don L critica a visão predominante do rap americano, aborda a desigualdade global e posiciona o rap do Sul da América como uma força legítima e independente. A afirmação “sou do sul da América” reafirma sua identidade e ignora a influência cultural do “norte”.

    Don L também faz uma participação especial no mais novo álbum de Urias, Carranca, que, mesmo antes de sua estreia, já deixava claro que seria um dos discos mais aclamados do segundo semestre de 2025. E realmente, que álbum! O novo trabalho marca uma nova fase na trajetória musical da artista. Urias é aquela artista completa, autêntica, com uma voz única e peculiar — e é exatamente isso que eu mais amo nela.

    A palavra “carranca” faz alusão às figuras de madeira, de feições humanas ou animais, tradicionalmente usadas nas embarcações do Rio São Francisco para afastar maus espíritos e proteger os navegantes. Além disso, a carranca também possui um forte significado nas religiões de matriz africana, onde está associada à proteção e à comunicação entre o mundo material e o espiritual, remetendo a Exu.

    O disco mergulha em temas como ancestralidade, liberdade conquistada e resistência, com Urias buscando se reconectar com suas raízes. A própria artista descreve o projeto como uma forma de “tomar a liberdade para mim”, e é exatamente isso que o álbum transmite — uma sensação de força que vem da cura, da consciência e da história.

    E não dá pra deixar de falar da estética visual do álbum: um verdadeiro espetáculo afro-surrealista. As referências às religiões de matriz africana e ao afrofuturismo transformam cada imagem em um manifesto visual de poder, sensibilidade e espiritualidade. Urias entrega não só um disco, mas uma experiência estética e ancestral, reafirmando seu lugar entre os nomes mais criativos e visionários da música brasileira contemporânea.

    Uma das faixas mais marcantes desse novo projeto de Urias é “Voz do Brasil”, que tem como sample a música "O Guarani", de Carlos Gomes — composição que também se tornou tema de abertura do programa radiofônico A Voz do Brasil. Curiosamente, o programa nem sempre teve esse nome: antes, durante a Era Vargas, chamava-se “Programa Nacional”; mais tarde virou “Hora do Brasil”, até receber o título definitivo sob a Ditadura Militar, por determinação do então presidente Emílio Garrastazu Médici.

    Durante o regime, o programa se tornou um instrumento de propaganda estatal, exaltando as "grandes obras" e o suposto “milagre econômico”, enquanto escondia a censura, a repressão e a desigualdade social. A escolha de Urias de usar esse símbolo sonoro não é à toa — ela reapropria um ícone da comunicação oficial do Estado e o transforma em um ato de resistência artística.

    Em “Voz do Brasil”, a cantora faz uma crítica afiada e irônica à imagem estereotipada e hedonista do nosso país, que insiste em se vender como uma terra da "liberação geral", enquanto apaga suas dores, sua história e seu povo. É como se Urias dissesse: “essa não é a voz do Brasil — essa é a voz de quem o Brasil silencia”.

    A faixa, com sua sonoridade densa e pulsante, mistura o discurso político à espiritualidade e à estética afro-brasileira, criando um contraste poderoso entre o símbolo do poder e a voz das margens. É uma inversão simbólica: o que antes era usado para propagar o discurso do Estado, agora serve para amplificar a voz do povo — o verdadeiro Brasil, múltiplo, ancestral e insurgente.

    Ainda falando de latinidade, um dos álbuns mais sofisticados que abriram o ano de 2025 com aquela sensação de “este ano é o ano da América Latina” é Coisas Naturais, de Marina Sena. É um álbum impecavelmente produzido — aquele tipo de pop com identidade, autêntico, cheio de personalidade e, claro, a cara da Marina.

    O disco é uma fusão de referências culturais e musicais brasileiras: congado, reisado e sertanejo tradicional se entrelaçam com pop, bossa nova, funk e arrocha, criando um som que soa familiar e, ao mesmo tempo, absolutamente novo. É o tipo de trabalho que traduz a brasilidade contemporânea em forma de música — múltipla, híbrida, orgulhosa de suas origens e sem medo de ser pop. Nas letras, Marina aborda temas como liberdade, protagonismo feminino, autoconfiança e maturidade artística, refletindo sobre sua própria trajetória e a busca por uma expressão autêntica. 

    Vivemos um momento em que erguer a bandeira do Brasil já não é mais um ato de vergonha, mas de resistência. Depois de um período em que nossos símbolos foram sequestrados por discursos vazios e autoritários, a arte vem reconectando o país com sua própria essência. Levantar essa bandeira agora é reafirmar a cultura, a diversidade e a soberania do nosso povo.


    Gaby Amarantos está, sem dúvidas, vivendo o melhor momento de sua carreira. Em 2023, ela venceu o Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa com o disco “TecnoShow” — um marco histórico para a música brasileira e, principalmente, para a cultura amazônica. Desde aquele instante em que subiu ao palco para receber o prêmio, vestindo um traje inspirado na árvore sagrada samaumeira, desenhado pelo estilista paraense Marco Normando, Gaby vem chamando cada vez mais a minha atenção.

    Eu confesso que tive aquele sentimento de “poxa, como é que eu não tinha percebido o tamanho dela antes?”. Porque, afinal, é a Gaby Amarantos, uma artista que conheço desde criança! E mesmo assim, ela me trouxe de volta a sensação de estar diante de uma nova artista revelação. Talvez porque ela realmente esteja se reinventando — não só musicalmente, mas também em sua postura e discurso, cada vez mais consciente, madura e poderosa.

    Desde o seu álbum de estreia, “Treme” (2012), Gaby sempre fez questão de exaltar a cultura paraense, misturando o tecnobrega, o pop e as sonoridades da Amazônia com uma estética vibrante, colorida e popular. Em 2021, com o álbum “Purakê”, ela mergulhou numa vertente mais experimental — o que ela mesma chamou de “sons futuristas do Norte” —, explorando timbres eletrônicos, texturas amazônicas e narrativas sobre ancestralidade e pertencimento. Foi um álbum ousado e inventivo.

    Mas o que ela nos entrega agora com “Rock Doido” vai além. É uma verdadeira celebração da cultura de aparelhagem do Norte, esse universo sonoro e visual que movimenta multidões e transforma festas em experiências quase místicas. O disco tem o formato de um set de DJ, que transporta o ouvinte direto para o coração das festas paraenses — um carnaval de luzes, batidas e vozes.

    A expressão “Rock Doido”, segundo a própria Gaby, é uma gíria paraense que se refere ao momento de maior intensidade da festa, quando o público está em êxtase, o som está no auge, e ninguém mais quer que a noite acabe. E é exatamente isso que o álbum transmite: energia, alegria, orgulho e pertencimento.

    Além do disco, vale muito a pena assistir ao filme “Rock Doido”, disponível no YouTube, gravado em plano sequência, ou seja, sem cortes — uma escolha artística que reforça a autenticidade e a imersão na cultura paraense. O resultado é incrível: um espetáculo visual e musical que celebra o Norte do Brasil em toda sua potência.

    Mais do que uma artista pop, Gaby Amarantos se afirma como uma voz da Amazônia contemporânea, que transforma suas raízes em manifesto, seu corpo em palco e sua música em resistência. Ela nos lembra que o Brasil é muito maior do que o eixo Sul-Sudeste — e que há uma revolução sonora, estética e cultural pulsando na floresta, nas periferias e nos corações que dançam ao som do tecnobrega.

    Esses foram os álbuns que mais me chamaram atenção e que realmente mexeram comigo até agora. Cada um deles, à sua maneira, traduz esse novo momento da música latino-americana e brasileira — um tempo em que arte, identidade e resistência caminham juntas. São trabalhos que me fizeram pensar, sentir e, principalmente, me reconhecer como parte desse grande movimento cultural que vem tomando forma.

Então, se você quiser mergulhar nessa viagem pela latinidade contemporânea, segue aqui a lista pra ouvir direitinho:

Lista de Indicações:

  • Debí Tirar Más FotosBad Bunny

  • Caro Vapor II: Qual a Forma de Pagamento?Don L

  • CarrancaUrias

  • Coisas NaturaisMarina Sena

  • Rock DoidoGaby Amarantos

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